Casos e Referências

DESENVOLVIMENTO INFANTIL – Lá de dentro: o que aprendemos durante a vida intra-uterina?

13 . October . 2014
Este artigo faz parte da série:

Desenvolvimento Infantil

A partir de quando a criança aprende? Será que já nasce sabendo algo? Como ela se constitui? Quais são as fases pelas quais passa e quais os principais desafios e conquistas que encontra em cada uma delas?

 

Ao longo de alguns posts iremos acompanhar a trajetória do desenvolvimento infantil com foco, principalmente, em como a criança aprende em cada momento da vida. É preciso sempre lembrar que cada um irá trilhar seu caminho individual e terá seu ritmo próprio de amadurecimento. Porém, tendo informações gerais sobre o que cada fase possibilita, podemos ter pistas de como oferecer apoio e estímulo de forma mais adequada.

Já ouviu falar de psicologia pré-natal? Esta área de estudo tem crescido cada vez mais com o advento das novas tecnologias aplicadas à área médica. Por meio de equipamentos progressivamente mais refinados foi possível descobrir que dentro da barriga da mãe o bebê já é capaz de conhecer alguns aspectos sobre o ambiente em que está. E este aprendizado fica armazenado em um tipo especial de memória: a memória corporal.

Desta forma, sabemos que o desenvolvimento do bebê ocorre tanto pelo amadurecimento físico ao longo da gestação quanto a partir das experiências e explorações que realiza enquanto está na barriga. A gestação é dividida em três estágios:

  • A fase germinal, que dura de 10 a 14 dias e envolve a concepção e a implantação do feto no útero.
  • O estágio embriônico, que vai da segunda semana à oitava e é o principal momento de formação dos órgãos e desenvolvimento dos sistemas essenciais do corpo.
  • O estágio fetal, que vai da oitava semana até o parto e no qual ocorre principalmente o crescimento da criança. Nesta fase ela é capaz de sentir as carícias que são feitas na barriga!

Alguns aspectos são muito importantes para o bom desenvolvimento da criança ao longo da gestação. A alimentação da mãe, sua exposição a drogas, incluindo nicotina e bebidas alcóolicas, e radiação, bem como o adoecimento por vírus ou infecções são elementos que podem interferir no crescimento e formação do bebê. Mães com idade avançada ou muito jovens também podem ter complicações. Em todos os casos é recomendado acompanhamento médico para verificar se tudo vai bem e para resolver qualquer intercorrência o mais rápido possível.

O apoio do pai e a segurança emocional oferecida por ele podem ser muito importantes para que a mãe se prepare para a chegada da criança. A parceria entre o casal ajuda para que enfrentem positivamente as grandes mudanças que irão ocorrer em suas vidas com a presença de um filho.

Além de todos estes aspectos, existem certas vivências do feto ao longo da gravidez que fazem parte de seu desenvolvimento e foram estudadas e aprofundadas pela psicanalista Joanna Wilheim. Ela enfatiza que, mesmo antes de nascer, o bebê já possui vida afetiva e é capaz de sentir aquilo que acontece com a mãe. Ele apreende o que se passa com ela por meio de sinais fisiológicos, como aumento da frequência cardíaca, movimentação corporal e liberação de hormônios específicos, transmitidos a ele através da placenta. Mães que passam por stress frequente durante a gravidez podem gerar mudanças no padrão respiratório e circulatório de seu bebê.

Durante a gestação, mãe e criança entram numa sintonia especial e são capazes de se comunicar e começar a se conhecer. Isso vai ocorrendo conforme a mãe se conecta emocionalmente com seu filho por meio das carícias e conversas que mantém com ele. A capacidade de senti-lo e acolhê-lo quando está agitado também são formas de iniciar o contato com a criança e de exercer a maternidade.

O feto não fica estático no útero: ele explora seu ambiente, brinca com o cordão umbilical, se movimenta, dá cambalhotas, suga os dedos, dorme, sonha e até possui um tipo especial de choro, o vagitus uterinus. Todas essas possibilidades que o feto experimenta contribuem para a formação de seus sentidos, seus afetos, bem como para o bom desenvolvimento de seus ossos e juntas.

Além disso, dentro da barriga, o bebê é capaz de perceber luz e som. Encontra posições preferidas e prova sabores a partir das substâncias que são passadas a ele pela alimentação da mãe. A partir do 4o mês de gestação, a criança é capaz de ouvir a voz da mãe e pesquisas indicam que os padrões de choro ao nascer muitas vezes reproduzem a entonação e sonoridade da fala materna. Outro fato interessante: algumas crianças cujas mães têm o hábito de cantarolar nascem com inclinação maior para apreciar música e acalmam-se quando reconhecem as melodias que escutavam durante o período de gestação.

Os sonhos que acontecem dentro da barriga são alguns dos primeiros movimentos cognitivos do bebê, uma vez que são pensamentos acompanhados de emoções. Os primeiros sorrisos acontecem quando eles sonham. Alguns chegam a dar risada!

Podemos, assim, constatar o grande potencial que o ser humano tem de buscar conhecimento. Ele é capaz de fazê-lo antes mesmo de vir ao mundo! Sabendo disso, compreendemos um pouco mais a importância de estar atento aos movimentos e manifestações do bebê durante a gestação. E também é possível começar a imaginar o quanto ele já nasce capaz de experimentar o ambiente que o recebe, tema que exploraremos no próximo post sobre desenvolvimento infantil.

* Imagem: Fases da gravidez em 10 auto-retratos pela fotógrafa Sophie Starzenski.

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