"João e o Pé-de-Feijão": conquistas e contribuições | Labedu
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“João e o Pé-de-Feijão”: conquistas e contribuições

Ilustração por Pavel Tartarnikov.
22 de agosto de 2016
Este artigo faz parte da série:

Contos de fadas e o desenvolvimento emocional das crianças

Em mais um dos nossos posts da série sobre contos de fadas, nos debruçamos sobre a história de João e o Pé-de-Feijão!

 

João e o Pé-de-Feijão é um conto inglês, que assim como muitas outras narrativas tradicionais, possui diversas versões. Aqui, exploraremos a mais conhecida, de Joseph Jakobs, datada de 1890.

Confira aqui a adaptação do conto feita para a série “Contos de Fadas”.

Nessa história João e a mãe viviam às custas do leite de sua vaca, Branca-de-Leite. Em dado momento, a vaca seca e os dois ficam à mercê da miséria. A mãe então pede que João venda Branca-de-Leite na feira para conseguir algum dinheiro. Porém, o menino em seu caminho cede à oferta de um estranho de trocá-la por feijões mágicos. O homem lhe diz: “Plante-os, que amanhã terá um pé-de-feijão na altura do céu!”. Ao chegar com os feijões em casa, João é severamente repreendido pela mãe, que acredita que o garoto foi feito de bobo pelo estranho. Com raiva, ela atira os feijões pela janela e no dia seguinte, um enorme pé-de-feijão ergue-se ao lado da casa.

Essa primeira parte da história pode ser relacionada com a vivência das crianças muito pequenas que passam pelo desmame. Pensando na ligação de João com a mãe, percebemos uma ruptura: tudo ia bem, até que o leite acabou. A partir de então, cada um tem um caminho para resolver o problema e a incompatibilidade entre mãe e filho gera frustração e conflito. O simbolismo da vaca também remete à fartura do leite, que de repente cessa. Quando a criança e a mãe vivenciam o desmame, muitas vezes a situação é inicialmente sentida como privação de afeto e distanciamento.

Entretanto, esse movimento de separação entre mãe e criança é essencial para que ela transforme sua relação de dependência e comece a traçar seus próprios caminhos. Frente ao desafio de estar por si só, João não se acovarda ou cede ao desamparo. Ele decide seguir sua curiosidade e explorar o mundo: quer viver aventuras grandiosas e resolve escalar o pé-de-feijão. A escalada de João mostra esse progressivo impulso de crescimento e expansão, liberdade que é conquistada após o desmame.

Após algum esforço, o menino chega ao cume do pé-de-feijão, onde encontra uma estrada que conduz à porta de uma casa enorme. Lá está uma giganta que alerta João sobre o dono da casa: um gigante comedor de crianças. O menino insiste em entrar e ela acaba deixando, mas pede que ele tenha cautela e espere a soneca do terrível gigante em um esconderijo seguro.

Quando o dono da morada fareja o cheiro de carne humana no ar, a giganta o engana, dizendo que o odor vem do resto de seu jantar do dia anterior. Após alimentar-se, o gigante resolve contar suas moedas de ouro e acaba adormecendo. João não perde tempo e rouba o dinheiro antes que seu inimigo acorde, levando-as para sua mãe. Os furtos à riqueza do gigante acontecem mais duas vezes ao longo da história, quando João sobe novamente no pé-de-feijão e entra escondido na casa do gigante. Em cada uma das visitas, ele consegue levar consigo uma preciosidade: uma galinha que bota ovos de ouro e uma harpa que toca as mais belas melodias. A última escalada é a mais arriscada, pois o gigante percebe o intruso.

Porém João age rapidamente e consegue vencer o enorme inimigo, derrubando-o ao cortar o pé de feijão. Assim, o menino passa a viver confortavelmente com sua mãe, sem passar mais qualquer necessidade.

As idas e vindas de João à casa do gigante são momentos de provação e crescimento. Embora ainda seja pequeno, ele precisa encontrar recursos próprios e coragem para conseguir provisões. Isso pode simbolizar os primeiros passos de independência dados pelas crianças, que corajosamente se afastam daquilo que é familiar e conhecido para conquistar autonomia e dominar novos espaços.

A volta de João para casa, marcada pelo sucesso, revela o quanto é importante para os pequenos sentir que agregam algo novo à sua origem e que enriquecem a vivência das pessoas amadas, retribuindo a partir de seu próprio mérito aquilo que lhes foi ofertado ao longo dos anos. Por isso, é muito importante que valorizemos as pequenas conquistas diárias das crianças: as descobertas que compartilham conosco, os objetos que constroem, os desenhos que criam, as relações que estabelecem… Cada uma dessas vivências é um gigante vencido e uma galinha dos ovos de ouro conquistada!

Este post foi escrito com base no livro “Fadas no Divã”, de Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso.

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