28 de agosto de 2026
Alfabetizar não é apenas ensinar a decodificar palavras, mas inserir a criança na cultura escrita e no mundo do conhecimento. A afirmação é de Beatriz Cardoso, Conselheira Estratégica do Labedu, durante um encontro promovido pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação e Economia Social (Lepes) da USP em parceria com o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade. O evento, realizado em 21 de agosto e conduzido pelo coordenador do Lepes Daniel Santos, teve como tema “Métodos e estratégias eficazes para alfabetizar e os desafios da implementação em larga escala”.
O encontro integra um ciclo de debates que reúne especialistas em alfabetização. Além de Beatriz, participaram Eliseu Coutinho de Macedo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e Joan Edesson de Oliveira, pedagogo que atuou na Secretaria Municipal de Educação de Sobral.
Em sua apresentação, Beatriz propôs uma mudança de enquadramento para o debate sobre alfabetização. Segundo ela, o campo tende a buscar um único responsável pelos resultados insuficientes, seja o método, o material didático ou o professor, o que mantém a discussão estagnada há décadas. Para a conselheira, a escolha metodológica importa, mas é apenas parte de um problema mais amplo, que envolve a interação entre crianças, professores, escolas, gestão e política. Antes de discutir métodos, defendeu, é preciso construir as capacidades necessárias em cada um desses níveis do sistema.
Beatriz também propôs uma pergunta anterior à discussão metodológica: para que alfabetizar hoje? Ela propõe a visão de que alfabetizar é inserir a criança na cultura escrita e no mundo do conhecimento, e não apenas ensinar um sistema gráfico. Isso significa formar leitores capazes de inferir, interpretar, integrar informações, avaliar evidências e argumentar, além de lidar criticamente com textos em ambientes digitais.
A conselheira defendeu que decodificação e compreensão não seguem uma ordem sequencial, mas se desenvolvem simultaneamente desde muito cedo. Para Beatriz, a linguagem deve ser compreendida como cognição: é por meio dela que a criança aprende a hipotetizar, inferir e interpretar, ao mesmo tempo em que se apropria da própria linguagem escrita.
Beatriz também apresentou a concepção de duplo foco que orienta a metodologia do Labedu, fundamentada nas ideias da pesquisadora argentina Ana Teberosky: o mesmo processo de aprendizagem que acontece com a criança, a partir do texto, deve acontecer com o professor, a partir da prática observada, analisada e tematizada.
Para a conselheira, o desafio central da alfabetização brasileira é construir sistemas que desenvolvam continuamente a capacidade profissional dos professores. “O objetivo de uma política pública não pode ser o método, e sim a construção de capacidade profissional”, afirmou.
Ao final de sua apresentação, Beatriz retomou uma citação de Ana Teberosky para sintetizar sua perspectiva: a alfabetização deve ser entendida como um programa de conhecimento, mediado pela cultura e pela interação com outras pessoas, mais complexo do que qualquer discussão metodológica isolada é capaz de captar.
Assista à apresentação completa:
