20 de outubro de 2014
As crianças têm capacidade de entrar em discussões filosóficas? Sugerimos um ponto de partida: perguntar para as crianças se seus brinquedos eletrônicos são seres vivos.
No início dos anos 1980, algumas crianças na praia jogando Merlin, um brinquedo eletrônico portátil tipo jogo-da-velha, conversam…
Robert (7 anos) joga Merlin na areia e grita: “Trapaceiro! Espero que seu cérebro quebre!”
Craig (6 anos): “Merlin não sabe se trapaceia. Ele não vai saber se quebrar. Ele não entende se você quebrar ele, Robert. Ele não está vivo.”
Greg (8 anos): “Alguém ensinou o Merlin a jogar. Mas ele não sabe se ganha ou se perde.”
Robert: “Sabe sim. Ele faz barulhos diferentes.”
Greg: “Não, burro. Ele é inteligente. É inteligente o suficiente para fazer os tipos de barulho certos. Mas não sabe de verdade se está perdendo. É assim que você consegue trapacear ele: ele não sabe que você está trapaceando. E quando ele trapaceia, ele não entende que está trapaceando.”
Jenny (6 anos): “Greg, para trapacear você tem que saber que está trapaceando. Saber é parte do trapacear”. *
Desde os anos 1980, a psicóloga Sherry Turkle investiga a capacidade das crianças terem discussões filosóficas sobre a vida. No livro “Second Self”, aborda como os brinquedos eletrônicos servem como ponto de partida para as crianças entrarem em discussões filosóficas e psicológicas sobre o que diferencia o ser humano das máquinas. Usando como base a metodologia de investigação do suíço Jean Piaget, ela questiona as crianças se seus brinquedos são seres vivos.
Ainda na década de 1980, ela observou que, à medida que as crianças cresciam e aumentavam sua percepção psicológica das máquinas e da vida, elas tendiam a distinguir entre a máquina e o humano na base dos sentimentos: a máquina pensa e tem capacidade racional como o ser humano, mas somente o humano tem a capacidade de sentir.
Trinta anos depois, no livro “Alone Together” (2011), Turkle observa que o surgimento de brinquedos como o Furby, o Tamagotchi e pets eletrônicos, faz com que essa distinção entre vivo e não-vivo se complexifique. Estes brinquedos, afinal, simulam emoções e provocam sentimentos reais nas crianças, então separar e compreender o que é ou não humano se torna um desafio diferente.
Da esquerda para a direita: Merlin e Furby
Turkle atualmente acredita que as crianças têm uma abordagem menos metafísica e mais pragmática em relação ao que é vivo ou não. O que se mantém constante é a instigação das crianças diante da pergunta “Isto é vivo?”. Suas respostas podem ser diferentes, mas a capacidade das crianças de refletir sobre o assunto e de buscar explicações é a mesma.
O que podemos pensar com esta discussão toda é que devemos levá-la para dentro de casa. As tecnologias digitais são cada vez mais presentes na vida das crianças – ao estimulá-las a pensar sobre essas tecnologias, podemos aprender com suas reflexões.
*Diálogo traduzido livremente do livro “Second Self” (1984), editora Simon and Schuster.