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Casos e Referências

Crianças contam como é viver em contextos violentos

Crianças contam como é viver em contextos violentos
30 de outubro de 2019

Crianças que sofrem com contextos traumáticos têm mais dificuldade de aprendizado e têm mais chance de desenvolver problemas de saúde quando adultos.

As sequelas da violência.

Experiências traumáticas em grande escala na infância têm fortes efeitos ao longo da vida e podem moldar uma geração inteira de adultos, que passam a ter mais chance de perpetuar o ciclo de violência.

Quando a violência em questão é causada por decisões de políticas públicas, é fundamental que os governos avaliem os impactos de suas intervenções para garantir os direitos das crianças e a saúde de suas comunidades, no presente e no futuro.

Segundo a UNICEF, quando os pequenos são expostos à traumas repetidos ou prolongados — como, por exemplo, encarceramento ou tiroteios de rotina — o estresse libera substâncias químicas em seus corpos que afetam conexões neurais, gerando implicações para a saúde física, emocional, mental e cognitiva. No geral, crianças que sofrem com contextos traumáticos têm mais dificuldade de aprendizado e têm mais chance de desenvolver problemas de saúde quando adultas. Para um país, quando populações infantis inteiras são traumatizadas, há impactos no bem-estar da população, na qualidade da força de trabalho nacional e na demanda por saúde pública, por exemplo.

As crianças aprendem o tempo todo. Rapidamente, se apropriam do que veem, ouvem e vivenciam. Em contextos de violência e trauma, o que estão aprendendo essas crianças? Se isso é tudo o que conhecem, que futuro podem vislumbrar?

Para responder isso, trouxemos as vozes das crianças. Ao entrar em contato com o ponto de vista infantil sobre essas realidades, temos uma porta de entrada para suas necessidades. É uma possibilidade de compreender seus desafios e de pensar em como resolvê-los.

 

Conflitos sem guerra

O Toda Criança Pode Aprender produz há anos reflexões sobre infâncias em contextos de guerra. Entretanto, mesmo em países que não tem zonas de guerra, há situações limite que geram zonas de conflito. Selecionamos dois exemplos, um do Brasil e um dos Estados Unidos.

 

Brasil: O Complexo da Maré

“O ruim das operações nas favelas é que não dá para brincar muito. E também morrem moradores nas comunidades. Também têm muita violência”

Imagem: Redes da Maré

No Rio de Janeiro, só em 2019, 16 crianças da periferia foram baleadas durante operações policiais. Das 16, 5 morreram, sendo a vítima mais recente Ágatha Félix, de 8 anos, no Complexo do Alemão. Recentemente, 1.500 crianças do Complexo da Maré, na Zona Norte da cidade, escreveram cartas ao governador pedindo para que as operações policiais na região fossem regularizadas com o restabelecimento da Ação Civil Pública. Nas cartas e desenhos, as crianças compartilham seus medos, limitações e anseios:

 

“Eu não gosto do helicóptero porque ele atira para baixo e as pessoas morrem”

Imagem: Redes da Maré

 

“Eles tem que respeitar os horários que as crianças estão na escola”

Imagem: Redes da Maré

“Nunca pode sair de casa porque tem tiro. Nenhuma criança poderia sair”

Imagem: Redes da Maré

O projeto 342 Artes produziu um vídeo em que adultos leem algumas dessas cartas:

Após esse e outros apelos, o governo restabeleceu parâmetros mínimos para as operações policiais, como veto a ações armadas durante os horários de entrada e saída de escolas.

Dando seguimento, crianças da Maré também propuseram uma cartilha de orientação para a polícia:

“O que os policias não deve (sic) fazer quando entrarem em uma comunidade: Não atirar sem ter certeza que essa pessoa é um bandido. Não invadir as casas dos moradores, se entrar não bater neles. Não aceitar dinheiro de bandido (…) Lembrar também que o modo de se vestir ou o corte de cabelo não quer dizer que você é bandido.”

Foto: Agência O Globo, Projeto Urerê do Complexo da Maré

 

EUA: Fronteira Sul

Milhares de crianças imigrantes, em sua maioria de origem latino-americana, têm sido detidas pela Patrulha de Imigração dos EUA em condições extremas, sem cuidados necessários de saúde, alimentação e abrigo. Sete crianças morreram sob custódia do Controle de Fronteira estadunidense desde outubro do ano passado.

O jornal New York Times fez um vídeo com depoimentos de algumas delas. São depoimentos escritos, lidos por outras crianças. Qualquer política de detenção do tipo precisa levar em conta os pequenos, especialmente considerando que, muitas vezes, os pais arriscam a travessia ilegal justamente para proporcionar um futuro melhor e mais seguro para seus filhos. Crianças imigrantes ainda são crianças, e, portanto, necessitam cuidados e proteção especial.

 Uma tradução livre do conteúdo falado do vídeo:

Nós viemos para os EUA porque tinham pessoas que queriam nos machucar.

 Aqui em Clint (centro de detenção) eu sinto fome o tempo todo. Sinto tanta fome que já acordei no meio da noite de fome. Tenho muito medo de pedir para os oficiais por mais comida.

 Não tem água ou sabão para lavar nossas mãos depois que usamos o banheiro. Temos que pedir papel higiênico quando precisamos usar.

 Eu e minha irmã seguramos um cobertor para cobrir uma a outra para que ninguém nos veja enquanto usamos o banheiro

 Tenho 5 anos, sou de Honduras.

 Tenho 7 anos. Sou de El Salvador.

Agentes me separaram do meu pai. Eu não vi meu pai novamente.

Eu estava molhada quando cheguei aqui e fui colocada na gaiola sem ganhar roupas secas. Estava tão frio, eu estava tremendo tanto…

Eu sou a terceira menina adolescente que tentou cuidar desse menininho de dois anos. Eu dou comida e água para ele. Eu também cuido de outra criancinha. Ela me chama de ‘mama’. Ela tem seis anos de idade.

Não tem espaço para se mexer sem pisar nos outros. Nós não recebemos nem um tapete para dormir em cima, então tivemos que dormir no chão frio de concreto. As luzes estão sempre ligadas.

Não conseguimos dormir, por que a cada 15 a 20 minutos os guardas estão gritando alguma coisa. “Levanta!”

Nós passamos o dia todo e todo dia dentro daquele cômodo. Não tem nenhuma atividade, só choro.

Nas duas semanas que estamos aqui, nos deixaram sair cerca de 5 vezes por 20 minutos.  

Eu gostaria de ter um pouco de ar fresco.

Estou aqui sem tomar banho há 21 dias.

Uma vez, precisei de roupas limpas para minha bebê porque ela vomitou. Mas quando pedi, me disseram que não tinham nada disponível. Ela ainda está usando as mesmas roupas sujas. Não pedi mais nada desde então.

Há cerca de três dias fiquei com febre. Eles me moveram para uma cela dos gripados. Não tem ninguém para cuidar de você lá. Eles só te dão pílulas duas vezes por dia.

Minha pele está vermelha e com coceira e meu nariz, entupido. É tão feio estar trancado o tempo todo.

Tenho saudade da minha mãe, que mora em Delaware [estado dos EUA]. Não sei porque ainda estou aqui. Não quero voltar para o meu país.

Ás vezes, quando perguntamos, nos dizem que vamos ficar aqui por meses.

Nós do Toda Criança Pode Aprender falamos bastante sobre como as crianças não são os cidadãos de amanhã, são cidadãs de hoje, com seus próprios direitos. Quando os pequenos se posicionam, usando suas vozes para contar sobre os desafios que enfrentam, cabe aos adultos ouvir e prestar atenção.

 

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