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Casos e Referências

Psicanalistas comentam os desafios do desenvolvimento psicológico das crianças na atualidade

Psicanalistas comentam os desafios do desenvolvimento psicológico das crianças na atualidade
14 de outubro de 2016

O que será que tem acontecido para que a identificação de tantos quadros de sofrimento ocorra ainda na infância?

 

Em uma das edições do programa “Café Filosófico”, do Instituto CPFL Cultura, as psicanalistas Julieta Jerusalinsky e Maria Rita Kehl discutiram a epidemia diagnóstica de quadros como déficit de atenção e hiperatividade, autismo e transtorno bipolar em crianças. Inicialmente, as especialistas apontam que não necessariamente essas patologias tenham aumentando sua incidência na contemporaneidade, mas sim que seus sintomas têm sido descritos de forma mais genérica pela psiquiatra. Por conta disso, manifestações que antes eram tomadas como estados transitórios ou aceitas como características individuais são agora consideradas doenças.

Conforme é apontado pelas profissionais ao longo do programa, há uma tendência atual de assumir que certos comportamentos e modos de ser são consequência da ação de neurotransmissores agindo sobre o organismo e fruto da genética individual. Entretanto, isso reduz a compreensão de fenômenos profundamente complexos, que envolvem vários fatores. Quando nascemos, nossa rede neuronal não está pronta e as experiências pelas quais passamos são parte importante dessa construção. A maneira como vivemos também altera nossos registros químicos. Tanto o organismo, quanto a psique e o contexto em que estamos são aspectos que, em interação, influenciam o desenvolvimento.

Sendo assim, é importante pensar sobre o tipo de vivência que nós, enquanto adultos, temos proporcionado às crianças. De acordo com as psicanalistas, há uma tendência em poupar os pequenos de lidar com frustrações e tristezas que são naturais da vida. Isso pode acabar contribuindo para uma fragilidade emocional por parte das crianças, que ficam despreparadas para enfrentar obstáculos e limites.

Outro aspecto a se refletir é a busca dos adultos em satisfazer ilimitadamente os desejos infantis. Gratificar a criança de forma incessante e dar a ela a impressão de que pode ter tudo impede que ela encare que algumas coisas precisam ser conquistadas com muito esforço. É preciso que a criança tenha a oportunidade de vivenciar essa angústia de ter que encontrar caminhos para conseguir o que quer. Caso contrário, ela não terá desejo de crescer. Não fará escolhas, compreendendo que algo se ganha e algo se perde. Não partirá para a ação, acomodada em uma situação confortável. Ou seja, poderá paralisar-se em uma postura melancólica e desinteressada, sentindo que não há nada a fazer, pois tudo já é feito sem que ela precise agir.

Conforme ressalta Julieta Jerusalinsky, o trabalho da criança não é o mesmo dos adultos. Ela é poupada da inserção mercadológica para que possa viver um tempo de autoconstrução, de elaboração de seu lugar no mundo. Não podemos, nem devemos, poupá-la disso.

Recomendamos o vídeo completo do programa, disponibilizado abaixo. Além de aprofundar as questões que exploramos no post, ele ainda traz o ponto de vista das duas psicanalistas sobre outras questões da infância na contemporaneidade. Não perca!

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