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“Júnior, tem visita pra você!”

14 de outubro de 2013

A campainha tocava. E com ela, a chegada de dois pares de sapatos…

Conto maravilhoso e surpreendente. Vale a pena ler!

Júnior, tem visita pra você!

O alvoroço era ouvido do outro lado do corredor, ininteligível, mas capaz de despertar a atenção de qualquer um. Poucas vezes presenciei tamanha comoção neste lugar, a não ser quando resolvi subir no parapeito para olhar a vizinha e caí desacordado no chão. Pobre de mim nesta cadeira de rodas, mas quem diria que, ao saber do incidente, a mesma vizinha me visitaria não só uma, mas tantas outras vezes que até fizemos juras de amor eterno.

Amor de criança é assim. Puro, inocente e sincero.

Atravessando o corredor recheado de nossos desenhos, uns encardidos com a umidade da parede descascada, lembro-me dos desejos e sentimentos que cada um daqueles traços tão somente expressavam, como um grito de socorro, a solidão que nos acompanhava. Dos momentos de angústia, aprendi a conversar com um cara lá de cima e que me dizia sempre “Não se preocupe pois estarei ao teu lado”. 

O que aquelas pessoas tanto me olhavam? Será que falavam de mim? Senti olhares de julgamento e cochichos contidos entre os colegas, os quais se aglomeravam à frente da sala da diretoria, como se soubessem de algo antes de mim. Pela fresta da porta, pude observar três cabeças, mas de cujos sonoros risos não passavam despercebidos.

“Júnior, tem visita pra você!”

Dois pares de sapatos. Número 41 e muito bem engraxados, a ponto de ver meus olhos desconfiados refletidos neles. Chamavam-me a atenção aqueles rebeldes cachos que povoavam uma das cabeças, parcialmente contidos por um elástico, enquanto a outra se cobria com trabalhadas tranças rastafáris.

Perguntavam-me do que eu gostava de brincar, ler, comer… daí, era minha vez de fazer perguntas, que variavam do desenho animado preferido à raça do cachorro deles. Quis saber se tinham filhos e logo recebi um largo sorriso em retribuição. Naquele singelo momento, não mais me senti só. Naquele eterno momento, senti o amor incondicional, aquele que não vê pressa em se expressar.

Amor de pais é assim. Puro, inocente e sincero.

Para o cara lá de cima, eu disse “Não se preocupe pois eles estão ao meu lado”.

Escrito por Cylon Liaw.

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